domingo, 15 de dezembro de 2013

Redenção do parque


Imagina uma noite estrelada de dezembro, com muita gente reunida em um parque público. Grupos de amigos e famílias, sentados em lençóis estendidos no chão, conversam, riem, cantam, tocam instrumentos musicais, comem, bebem… Velas e lampiões iluminam o local. Brindes e aplausos exaltam aquele momento único. A energia do ambiente é inexplicavelmente maravilhosa.

Enquanto as horas vão se passando, a partir de interações entre pessoas até então desconhecidas, amizades se criam. Músicos se conhecem e acabam fazendo sons incríveis juntos. O pessoal se anima, já não quer mais ficar sentado. Em uma roda de samba de raiz, na qual músicas como Saudosa Maloca, Tiro ao Álvaro e Trem das Onze, do querido Adoniram Barbosa, são cantadas cheias de emoção, o povo samba feliz, com os pés descalços na grama úmida pelo sereno.

Essa descrição parece surreal, visto que a segurança é algo falho na maioria dos espaços públicos, principalmente durante a noite. O medo de ser violentado e/ou assaltado inibe o povo de ocupar certos locais, que poderiam ser muito melhor aproveitados. Em prol dessa causa, alguns moradores de Porto Alegre começaram a organizar eventos em espaços públicos da capital gaúcha, procurando reunir um grande número de pessoas para aproveitar aquele local.

Um dos lugares onde acontece esse tipo de evento é o Parque Farroupilha, mais conhecido como Redenção. Ele costuma ser visitado por milhares de pessoas durante o dia. Já, à noite, é muito pouco frequentado, por não ter iluminação suficiente, nem guardas cuidando. Chega a ser irônico, pois o local que serviu de cenário para o movimento de libertação dos escravos (o que originou o nome “Redenção”), não é seguro e, automaticamente, impede a liberdade de ir e vir da população. Isso acaba os tornando escravos do anoitecer. O sol partiu? Hora de ir junto com ele!

Mas, voltando a noite estrelada de dezembro… Ela aconteceu na Redenção. O evento foi organizado por pessoas que além de buscar a ocupação dos parques à noite com mais segurança, também tinham como objetivo resgatar as coisas mais simples (e importantes) da vida. E, no caso, funcionou muito bem. O evento chamado Piquenique Noturno de Fim de Ano, que aconteceu no dia 14 de dezembro, reuniu cerca de três mil pessoas, iniciando-se às 19h30 e seguindo até o amanhecer. O clima foi de paz e muita alegria. O comentário geral era: “gostaria de momentos como esse com mais frequência”. Já estamos no caminho certo. Aos poucos vamos conquistando nossa liberdade de ir e vir e de passar uma maravilhosa noite na companhia de amigos, num parque aberto. Porto Alegre está finalizando o ano de 2013 com uma promessa de melhora em relação a isso. Um brinde a utilização dos nossos tão queridos espaços públicos com liberdade!

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Um sorriso iluminado


Era o final da tarde de uma segunda-feira chuvosa de novembro. Voltava do trabalho com pressa, pensando nas minhas tarefas, no trânsito, na faculdade… Então, ocorreu uma intervenção. Alguém me chamou uma, duas vezes. Resolvi olhar, e percebi que era um daqueles rapazes que vendem artesanato na Borges de Medeiros. Normalmente diria que estou sem tempo para parar e seguiria meu caminho, mas algo me fez voltar lá.

O rapaz, que usava uma roupa diferente e falava com um sotaque um pouco difícil de entender, me cumprimentou e perguntou meu nome. Mesmo desconfiada, respondi. Ele perguntou, então, se eu gostava de artesanato. Disse que sim, mas logo expliquei para ele que estava sem dinheiro naquele momento. Provavelmente compraria algo, se tivesse com algumas notas em mãos, pois seu trabalho era realmente muito bonito. Sorrindo, ele disse que não tinha importância e perguntou se podia fazer uma coisa para mim. Estranhando, mas bastante curiosa, respondi que sim.

Enquanto torcia um arame com um alicate, o rapaz, cujo nome eu ainda desconhecia, perguntou se eu gostava de flores. Disse que sim e ele falou que faria uma para mim. Mesmo fazendo o trabalho, ele continuou puxando conversa. Quis saber o que eu fazia da vida. Eu, ainda respondendo com poucas palavras, pelo estranhamento, falei que cursava jornalismo. Então, ele comentou um pouco sobre seus trabalhos que estavam expostos ali. Disse quais materiais usava e como os produzia. Aos poucos, eu fui me sentindo mais a vontade com aquela conversa. Ele tinha um sorriso iluminado, verdadeiro, que me passava tranquilidade.

Como sempre tive curiosidade sobre a história de vida das pessoas, comecei a fazer perguntas. “Tu mora por aqui mesmo?” foi a primeira questão. Ele explicou que viva viajando e que morava um pouco em cada lugar. Então quis saber de onde ele veio, pois percebia que aquele sotaque era realmente incomum. Ainda concentrado no trabalho com o arame, contou que nasceu no Peru. O rapaz saiu de casa com 12 anos de idade, e aos 15, deixou seu país natal. Morou na Itália, onde estudou. Também morou na França, na Argentina… E, de alguma forma, chegou ao Brasil, mais precisamente, na cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.

Ele terminou o trabalho. Fez um simples, mas muito bonito, anel de flor, usando apenas um pedaço de arame e um alicate. Então, o rapaz colocou o objeto no meu dedo e apertou minha mão, sorrindo. Agradeci e disse que voltaria para conversar mais. Antes de ir embora, perguntei seu nome. Apesar do barulho alto da chuva, consegui escutar perfeitamente: “Meu nome é Juan”. Voltei para casa pensando em quão inusitado aquilo havia sido. Não sei qual foi o objetivo do Juan, ao tomar tal atitude. Mas ele me lembrou do meu objetivo, como estudante de jornalismo: conhecer as histórias de pessoas com culturas diversas, e contá-las para quem quiser ouvir. No fim das contas, aquele sorriso iluminado me contagiou. Me iluminou.